Há descobertas que parecem pequenas no ecrã: pontos vermelhos no centro de mosaicos, quase perdidos no ruído de milhares de milhões de objectos. A 6 de julho de 2026, a ESA e o Euclid Consortium anunciaram que esses pontos contam uma história enorme. O telescópio espacial Euclid descobriu 31 quasares muito antigos, incluindo os dois mais distantes já observados.
O recordista, EUCL J172902.75+641018.1, surge com redshift aproximado de 7,77. Traduzido para linguagem humana: vemos a sua luz como era quando o Universo tinha cerca de 670 milhões de anos, apenas 5% da idade actual do cosmos. Para uma missão pensada para mapear matéria escura e energia escura, é um lembrete útil: quando se observa uma parte gigantesca do céu com grande nitidez, aparecem também fósseis cósmicos inesperados.
Cronologia de uma descoberta que veio do fundo do tempo
- 1 de julho de 2023: Euclid é lançada para o ponto de Lagrange L2, a cerca de 1,5 milhões de quilómetros da Terra.
- 14 de fevereiro de 2024: começa a rotina científica da missão, com os instrumentos VIS e NISP a recolher imagens visíveis e dados no infravermelho próximo.
- 2025: os primeiros grandes blocos de dados ajudam a testar a capacidade da missão para separar galáxias, estrelas e candidatos a objectos raríssimos.
- 6 de julho de 2026: a equipa publica em Astronomy & Astrophysics a descoberta de 31 quasares entre redshifts 6,6 e 7,8.
- Final de 2026: está prevista a próxima grande entrega de dados da Euclid, que deverá ampliar a procura por objectos ainda mais distantes.
Esta sequência é importante porque a descoberta não veio de uma única imagem espectacular. Veio de uma cadeia: levantamento amplo no espaço, algoritmos de selecção, confirmação com telescópios em terra como Keck, Magellan e o Large Binocular Telescope, e análise científica para medir distâncias, ambientes e possíveis galáxias hospedeiras.
Porque quasares antigos interessam tanto?
Quasares são núcleos galácticos alimentados por buracos negros supermassivos. Quando gás e poeira caem para esses monstros, o material aquece e liberta energia suficiente para ofuscar a própria galáxia. No Universo local isto já é extremo; no Universo jovem, torna-se um problema fascinante.
Como é que buracos negros com milhões ou milhares de milhões de massas solares cresceram tão depressa? Que papel tiveram na época da reionização, quando a luz das primeiras estrelas e galáxias começou a transformar o hidrogénio neutro que enchia o cosmos? Até agora, havia poucos exemplos para estudar. A Euclid mais do que duplicou o número conhecido de quasares para lá de redshift 7, transformando uma lista de raridades num início de amostra estatística.
O detalhe que muda a escala da história
A parte decisiva não é só encontrar o objecto mais distante. É encontrar 31. Segundo o Euclid Consortium, apenas uma fracção minúscula dos quase mil milhões de objectos já observados pela missão corresponde a este tipo de quasar antigo. A dificuldade está em distinguir pontos muito ténues, avermelhados pela expansão cósmica, de estrelas e galáxias mais próximas.
O truque da Euclid é combinar área e profundidade. A missão cobre uma fatia enorme do céu e observa também no infravermelho próximo, precisamente onde a luz esticada dos quasares antigos se torna detectável. O resultado é uma espécie de rede de pesca cósmica: não apanha apenas os exemplares mais brilhantes, mas começa a revelar a população normal que antes ficava escondida.
O que vem a seguir
A descoberta de julho não fecha o capítulo; abre-o. A Euclid observou apenas parte do seu levantamento planeado, e a missão deverá continuar a mapear mais de um terço do céu ao longo de seis anos. A expectativa científica é clara: encontrar centenas de quasares de alto redshift e talvez empurrar a fronteira para z maior que 8.
Se isso acontecer, teremos uma cronologia mais nítida da infância cósmica: quando nasceram os primeiros buracos negros gigantes, como as suas galáxias fabricavam estrelas e de que forma a luz dessas fontes ajudou o Universo a sair da chamada idade das trevas. Para já, aqueles pequenos pontos no mosaico da Euclid são um aviso elegante: às vezes, uma imagem quase discreta é a porta para uma das épocas mais violentas e formativas da história do cosmos.
Fontes: ESA, Euclid Consortium, artigos de D. Yang et al. e Silvia Belladitta et al. em Astronomy & Astrophysics.
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