20/07/2026

Euclid encontrou os quasares mais antigos: um mapa para 670 milhões de anos

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Há descobertas que parecem pequenas no ecrã: pontos vermelhos no centro de mosaicos, quase perdidos no ruído de milhares de milhões de objectos. A 6 de julho de 2026, a ESA e o Euclid Consortium anunciaram que esses pontos contam uma história enorme. O telescópio espacial Euclid descobriu 31 quasares muito antigos, incluindo os dois mais distantes já observados.

O recordista, EUCL J172902.75+641018.1, surge com redshift aproximado de 7,77. Traduzido para linguagem humana: vemos a sua luz como era quando o Universo tinha cerca de 670 milhões de anos, apenas 5% da idade actual do cosmos. Para uma missão pensada para mapear matéria escura e energia escura, é um lembrete útil: quando se observa uma parte gigantesca do céu com grande nitidez, aparecem também fósseis cósmicos inesperados.

Mosaico de 15 quasares antigos descobertos pela missão Euclid
Quinze dos 31 quasares recém-identificados pela Euclid; os dois recordistas aparecem no canto superior esquerdo. Crédito: ESA/Euclid/Euclid Consortium/NASA, processamento pelo Euclid Science Ground Segment e Antoine Basset (CNES).

Cronologia de uma descoberta que veio do fundo do tempo

  1. 1 de julho de 2023: Euclid é lançada para o ponto de Lagrange L2, a cerca de 1,5 milhões de quilómetros da Terra.
  2. 14 de fevereiro de 2024: começa a rotina científica da missão, com os instrumentos VIS e NISP a recolher imagens visíveis e dados no infravermelho próximo.
  3. 2025: os primeiros grandes blocos de dados ajudam a testar a capacidade da missão para separar galáxias, estrelas e candidatos a objectos raríssimos.
  4. 6 de julho de 2026: a equipa publica em Astronomy & Astrophysics a descoberta de 31 quasares entre redshifts 6,6 e 7,8.
  5. Final de 2026: está prevista a próxima grande entrega de dados da Euclid, que deverá ampliar a procura por objectos ainda mais distantes.

Esta sequência é importante porque a descoberta não veio de uma única imagem espectacular. Veio de uma cadeia: levantamento amplo no espaço, algoritmos de selecção, confirmação com telescópios em terra como Keck, Magellan e o Large Binocular Telescope, e análise científica para medir distâncias, ambientes e possíveis galáxias hospedeiras.

Porque quasares antigos interessam tanto?

Quasares são núcleos galácticos alimentados por buracos negros supermassivos. Quando gás e poeira caem para esses monstros, o material aquece e liberta energia suficiente para ofuscar a própria galáxia. No Universo local isto já é extremo; no Universo jovem, torna-se um problema fascinante.

Como é que buracos negros com milhões ou milhares de milhões de massas solares cresceram tão depressa? Que papel tiveram na época da reionização, quando a luz das primeiras estrelas e galáxias começou a transformar o hidrogénio neutro que enchia o cosmos? Até agora, havia poucos exemplos para estudar. A Euclid mais do que duplicou o número conhecido de quasares para lá de redshift 7, transformando uma lista de raridades num início de amostra estatística.

Mapa da área observada pela Euclid e localizações dos quasares antigos
Área do levantamento da Euclid em agosto de 2025 e localização dos novos quasares do Universo jovem. Crédito: ESA/Euclid/Euclid Consortium/NASA/Planck Collaboration/A. Mellinger; agradecimento a Jean-Charles Cuillandre e João Dinis.

O detalhe que muda a escala da história

A parte decisiva não é só encontrar o objecto mais distante. É encontrar 31. Segundo o Euclid Consortium, apenas uma fracção minúscula dos quase mil milhões de objectos já observados pela missão corresponde a este tipo de quasar antigo. A dificuldade está em distinguir pontos muito ténues, avermelhados pela expansão cósmica, de estrelas e galáxias mais próximas.

O truque da Euclid é combinar área e profundidade. A missão cobre uma fatia enorme do céu e observa também no infravermelho próximo, precisamente onde a luz esticada dos quasares antigos se torna detectável. O resultado é uma espécie de rede de pesca cósmica: não apanha apenas os exemplares mais brilhantes, mas começa a revelar a população normal que antes ficava escondida.

Conceito artístico de um quasar alimentado por um buraco negro supermassivo
Conceito artístico de um quasar, um núcleo galáctico extremamente luminoso alimentado por acreção em torno de um buraco negro supermassivo. Crédito: ESA.

O que vem a seguir

A descoberta de julho não fecha o capítulo; abre-o. A Euclid observou apenas parte do seu levantamento planeado, e a missão deverá continuar a mapear mais de um terço do céu ao longo de seis anos. A expectativa científica é clara: encontrar centenas de quasares de alto redshift e talvez empurrar a fronteira para z maior que 8.

Se isso acontecer, teremos uma cronologia mais nítida da infância cósmica: quando nasceram os primeiros buracos negros gigantes, como as suas galáxias fabricavam estrelas e de que forma a luz dessas fontes ajudou o Universo a sair da chamada idade das trevas. Para já, aqueles pequenos pontos no mosaico da Euclid são um aviso elegante: às vezes, uma imagem quase discreta é a porta para uma das épocas mais violentas e formativas da história do cosmos.

Fontes: ESA, Euclid Consortium, artigos de D. Yang et al. e Silvia Belladitta et al. em Astronomy & Astrophysics.

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